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Uma ecologia integral é o sonho esperançado daqueles que acreditam que um novo céu e uma nova terra são possíveis como lugar de convivência pacífica e harmoniosa entre todas as criaturas. Para que este sonho se torne realidade é necessário introduzir uma nova política económica, socio-ambiental e cultural, que promova e instaure uma maneira diferente de habitar o planeta.

A Vida Consagrada deve estar muito atenta àqueles hábitos, que podem tornar-nos cúmplices da degradação das condições de vida. É-nos exigido um longo e profundo exame de consciência, que perscrute a nossa vida e pondere criteriosamente os nossos comportamentos, gestos e práticas quotidianas.

A natureza profética da consagração religiosa abre-nos ao entusiasmo de Deus perante a totalidade do mundo físico. Ser profeta não é conhecer nem antecipar o futuro, mas é sobretudo entender e dizer o presente. Ser profeta hoje é ousar lamentar a destruição do ambiente e evocar o sonho de Deus sobre a criação. Ser profeta é recordar o «ecocídio» global que ameaça a humanidade e todo o planeta. É, então, função da Vida Consagrada assumir a defesa da criação e daqueles que sofrem as consequências nefastas da degradação ecológica. Esta é, aliás, uma dimensão obrigatória da missão da Vida Consagrada.

Laudato si’ convida-nos a transformar as nossas comunidades religiosas em ambientes ecológicos significativos, ou seja, oásis de vida, onde se pode viver pacífica e alegremente, com o essencial e sem todas as comodidades que o mundo oferece. Neste sentido, a encíclica ecológica denuncia uma visão mundana e secularizada da Vida Religiosa, orientada para a produção, para o fazer e o dar; reivindica que se recupere a sua mística missionária, a partir das categorias da solidariedade, da cruz e da partilha com os pobres; pede ainda que se redescubra a centralidade do encontro, que não tem medo de tocar a «carne» de Cristo (Evangelii gaudium 24 e 270) – os pobres, os que sofrem, o mundo deturpado pelo poder descontrolado da tecnologia – para lhes comunicar a força salvífica do Evangelho.

O contributo da Vida Consagrada para a conversão ecológica passa por dar corpo a uma maneira de viver que seja sinal duma humanidade redimida, marcada pela comunhão, pelo respeito entre as pessoas, pela abertura e atenção aos mais débeis. Os consagrados e consagradas estão chamados a ser epifania de uma sociedade onde a fraternidade, o acolhimento, a escuta, o diálogo, o respeito recíproco e a comunhão intercultural não são apenas desejos pios ou lemas eleitorais, mas uma realidade em construção permanente. Os homens e mulheres especialmente consagrados, precisamente pela forma de vida que abraçaram, anunciam a possibilidade de viver como irmãos, manifestando que a diversidade cultural, nacional e étnica não é um empecilho, mas uma riqueza alegre, cheia de cavidades à espera de serem exploradas.

José Domingos Ferreira, scj