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(Sexta-feira a seguir ao Domingo II depois do Pentecostes)

 
 
O culto à Humanidade de Cristo e ao seu Coração, nascido entre os místicos medievais, como escola exigente de santidade, popularizou-se depois das revelações a Santa Margarida Maria Alacoque (1673-1675). Muitos cristãos viveram esta espiritualidade e, por meio dela, se santificaram aos longos dos últimos séculos. Há que voltar às suas fontes bíblicas e patrísticas dessa espiritualidade para redescobrirmos a sua riqueza e atualidade. Levando-nos a responder ao amor de Cristo, amando-O e unindo-nos ao seu amor ao Pai, o culto do Coração de Jesus também nos leva a amar os irmãos, particularmente os pequenos e pobres, abrindo-nos à solidariedade fraterna.
 
 
Lectio
 
 
Primeira leitura do Ano A: Deuteronómio 7, 6-11
 
Naqueles dias, Moisés falou ao povo nestes termos: “Tu és um povo consagrado ao Senhor, teu Deus. Na verdade, o Senhor, teu Deus, escolheu-te para seres para Ele um povo particular entre todos os povos que há sobre a face da terra.» 7«Não foi por serdes mais numerosos que outros povos que o Senhor se agradou de vós e vos escolheu; vós até éreis o mais pequeno de todos os povos. 8Porque o Senhor vos ama e é fiel ao juramento que fez a vossos pais, por isso, é que, com mão forte, vos tirou e vos salvou da casa da servidão, da mão do faraó, rei do Egipto. 9Reconhece, pois, que o Senhor, teu Deus, é que é Deus, o Deus fiel, que mantém a aliança e a bondade para com os que o amam e observam os seus mandamentos até à milésima geração. 10Ele castiga, porém, a cada um dos seus inimigos, fazendo-os perecer; não tardará em dar castigo a cada um dos que o odeiam. 11Observarás, pois, os mandamentos, as leis e os preceitos, que Eu hoje te mando pôr em prática.
 
Tu és um povo consagrado ao Senhor, teu Deus” (v. 6). Esta definição é feita pelo profeta no contexto da pregação do mandamento capital: “Escuta, Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor!” (6, 4). O povo violou este mandamento aceitando divindades cananeias. Daí a catástrofe do exílio. O autor sagrado coloca na boca de Moisés o discurso que os profetas faziam desde o século VIII a. C. Trata-se simultaneamente de uma denúncia e de uma promessa: Israel não está a morrer, mas no transe para renascer como novo povo de Deus, preparando-se para entrar na terra prometida. Conhecida a própria identidade, – ser um povo consagrado ao Senhor – há que viver em consonância com ela. A libertação, e a escolha feita por Deus, devem-se unicamente ao Seu amor. A resposta de Israel só pode ser amar o Senhor, fazendo a sua vontade, expressa nos mandamentos.
 
 
Segunda leitura do Ano A: 1 João 4, 7-16
 
Caríssimos: Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. 8Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. 9E o amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que, por Ele, tenhamos a vida. 10É nisto que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. 11Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros. 12A Deus nunca ninguém o viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chegou à perfeição em nós. 13Damos conta de que permanecemos nele, e Ele em nós, por nos ter feito participar do seu Espírito. 14Nós o contemplámos e damos testemunho de que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15Quem confessar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. 16Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.
 
 
Deus é amor em Si mesmo, e é a verdadeira fonte do amor para nós. O único caminho para chegar a Deus é o amor. O amor de Deus foi-nos mostrado em Cristo, para nossa salvação. João afirma que, pela sua fé, teve a felicidade de reconhecer presente no mundo, na Pessoa de Jesus, o amor de Deus. Levar os outros homens a descobrir este amor de Deus presente no mundo, é missão de todo o cristão. É através do testemunho do nosso amor fraterno, através da nossa doação efetiva aos outros, que podemos levar os homens a acreditar no amor de Deus, que enviou ao mundo o seu Filho.
 
           
Evangelho: Mateus 11, 25-30
 
Naquele tempo, Jesus tomou a palavra e disse: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. 26Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. 27Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» 28«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. 30Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.»
 
À semelhança dos mestres do seu tempo, Jesus anda rodeado pelos seus discípulos a quem revela a paternidade divina, isto é, que Deus é Pai, sobretudo de Jesus e, por meio d´Ele, dos crentes. É o máximo que se pode dizer da relação de Deus com os homens e dos homens com Deus. Ao contrário do que acontecia, Jesus não recruta os seus seguidores entre os sábios e poderosos do seu tempo, mas entre os pequenos e humildes, aqueles que efetivamente esperam o Reino e estão dispostos a acolhê-lo. Jesus introdu-los na compreensão do Mistério de Deus, descobrindo assim o segredo da alegria e da verdadeira felicidade.
 
Meditatio
 
Escolhemos para a Lectio divina, na Solenidade do Coração de Jesus, as leituras do Ano A. Mas, nos três anos litúrgicos, o tema é sempre o mesmo: o amor de Jesus pelos homens. Não se trata do amor de Deus em geral, como aquele de que nos falam os profetas, mas do amor de Deus feito carne.
O Coração de Jesus é o que há de mais profundo na humanidade assumida pelo Verbo. É o “ponto” onde toda a humanidade de Jesus se recolhe e encontra com a divindade, realizando, assim, o grande mistério de Deus feito homem. Se toda a humanidade de Jesus é o sacramento primordial da salvação, o seu Coração é-o de modo muito especial.
A espiritualidade do Coração de Jesus, como forma distinta, nasceu no século XIII, quando os burgos se libertavam do feudalismo… É nesse momento que nasce a nova corrente espiritual. Originariamente trata-se de uma espiritualidade monástica, sobretudo dos mosteiros femininos. Esta via monástica fez da espiritualidade do Coração de Cristo uma escola mística, uma escola de santidade, algo de exigente e de profundo. Trata-se de uma espiritualidade que é contemplação e não devoção. Fala-se do Crucificado de Lado aberto, e não tanto de Coração trespassado… É preciso voltar à mística, que fala à antropologia atual e, ultrapassando as práticas devocionais e outras incrustações dos últimos séculos, apoiando-a na sólida rocha do mistério do Verbo encarnado, voltar à espiritualidade do Coração de Jesus, fonte sempre válida de salvação e de santidade.
O Coração de Jesus é nosso berço: “Todos lá nascemos… Uns e outros lá nasceram”, como diz um Salmo de Sião (Sl 87, 4-6). O Coração de Jesus é a nossa Sião: “todas as nossas fontes estão em Ti”. Nascemos d´Ele: “Do Coração de Cristo, aberto na cruz, nasce o homem de coração novo, animado pelo Espírito e unido aos seus irmãos na comunidade de amor, que é a Igreja” (Cst. 3; cf. Pe. Dehon, Études sur le Sacré-Coeur, I, p. 114).
Porque é que a Igreja nos propõe o Coração como sinal concreto do amor divino-humano de Jesus, como expressão mais evocadora do amor com que Deus nos ama? Porque, na Bíblia, o coração é a parte mais nobre e mais importante do homem. É o “núcleo íntimo da pessoa”, sede da sua vida espiritual, lugar por excelência do encontro com Deus. Do coração nasce o que inquina o homem, mas também o que o santifica. O coração representa, pois, aquilo que, hoje, chamamos o “eu” profundo, o “eu” secreto. No culto ao Coração de Jesus, honramos toda a pessoa do Redentor e somos conduzidos à fonte dos seus sentimentos e das suas ações salvíficas. Esta concentração de interesse à volta do Coração de Jesus remonta já ao Novo Testamento, ao momento da morte de Cristo. S. João, com a extraordinária – e, quase diríamos, desproporcionada – importância que dá à transfixão de Jesus na cruz, abre o caminho que conduzirá à contemplação do Lado aberto e ao culto do Coração de Jesus. O seu comentário ao episódio: “Hão-de olhar para aquele que trespassaram”, revelar-se-á uma profecia.
Para nós, hoje, o coração já não representa o que representava para o homem bíblico. Todavia ainda encontramos na linguagem comum e no sentimento popular expressões que se aproximam do conceito bíblico: “tem bom coração”, “tem mau coração”, “é um homem de coração”… Hoje, as funções mais nobres do homem são atribuídas ao cérebro, à inteligência, à vontade… Mas ainda há uma coisa que nos ajuda a compreender, por analogia, o significado do Coração de Jesus: o coração é o motor de todo o corpo; a vida e a morte são assinaladas por ele; está presente em todo o organismo e fá-lo vibrar com o seu próprio movimento; a ele aflui o sangue venoso, que é regenerado, reciclado e reenviado a todos os membros do corpo. É o que faz, a nível espiritual, o Coração de Jesus no grande corpo que é a Igreja! No Coração de Jesus aconteceu a primeira purificação de todos os pecados, a regeneração da esperança e do amor humano. Todo o perdão, toda a graça, toda a inspiração, toda a esperança e toda a alegria, todo o impulso de unidade e de fraternidade que experimentamos na nossa vida, parte do centro que é o Coração de Jesus. Foi esse o desígnio do Pai: que nele habitasse “toda a plenitude”, graça sobre graça (cf. Col 2, 9; Jo 1, 16). A razão de tudo isto é que, naquele Coração, sobre a cruz, se consumou um ato de obediência total e perfeita a toda a vontade de Deus; por isso, Deus O exaltou e colocou nas suas mãos a salvação de todos os homens. O Coração de Jesus é a mina em que se encontram “todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (cf. Col 2, 3).
Conforta-nos saber que este Coração continua vivo. Há quem acuse a devoção ao Coração de Jesus de se fixar demasiado no mistério da Paixão, no Jesus histórico, esquecendo o mistério da Ressurreição. O próprio Pe. Dehon dá essa impressão a quem se aproxima superficialmente das suas obras. Na verdade, o Pe. Dehon, como toda a espiritualidade do Coração de Jesus, não esquece a Ressurreição. Fala dela ao falar da Eucaristia, onde Cristo está ressuscitado e glorioso. O Ressuscitado, para o Pe. Dehon, não é um conceito mais ou menos abstrato. É algo de muito real: vive na Eucaristia. Daí a importância do culto eucarístico na espiritualidade e do culto do Coração de Jesus.
O Coração de Jesus vive “no Espírito” como todo o Cristo. Vive também no coração daqueles que n´Ele acreditam e O amam. O Coração de Jesus é aquele “coração novo”, que Deus nos prometeu por meio de Ezequiel (11, 19), e que nos foi dado no batismo. É o “coração de carne” que, pouco a pouco, deve assumir o lugar do “coração de pedra” que levamos dentro de nós desde o nascimento e que tornámos mais duro com o nosso pecado.
S. Paulo recomenda: “Tende em vós os mesmos sentimentos que estavam em Cristo Jesus (Fil 2, 5). Ter os mesmos sentimentos, quer dizer ter o mesmo coração, amar, pensar, agir como Ele amou, pensou, agiu. Amar o próximo, como nos recomenda o Evangelho, é amar com o Coração de Jesus, é permitir a Jesus continuar a amar por meio de nós. Viver a nossa vocação de oblatos, unindo toda a nossa vida religiosa e apostólico à oblação reparadora de Cristo ao Pai, pelos homens (cf. Cst n. 6) é “inserir-nos no movimento de amor redentor” (Cst 21) suscitado por Cristo na sua Encarnação, Paixão, Ressurreiç&atild
e;o, obra do seu amor, do seu Coração.
 
 
Oratio
 
Senhor Jesus, hoje quero rezar-te com S. Bernardo e com o Pe. Dehon. O teu Coração é modelo para regular os movimentos do meu, e fundo para pagar o que devo à justiça divina, é lugar seguro onde, estando a coberto dos naufrágios e das tempestades, direi com David: encontrei o meu coração para orar a Deus. Sim, encontrei este Coração na divina Eucaristia, ao encontrar aí o Coração do meu soberano, do meu bom amigo, do meu irmão, o Coração do meu amável Redentor. Ámen
 
Contemplatio
 
Foi unicamente por amor, que Jesus fez tudo o que fez, que viveu entre nós, que morreu por nós e que ainda vive por nós no céu e na santa Eucaristia. A lança repete à sua maneira aquilo que o Salvador tinha dito a Nicodemos: “Deus amou-nos até ao ponto de nos dar o seu Filho único”. Fê-lo nossa propriedade; tudo nos pertence, os seus méritos, os seus mistérios, a sua vida, a sua morte, a sua graça, a sua glória e sobretudo o seu amor. Porque, repete ainda S. João, aqueles que Jesus amou, amou-os até ao fim, isto é, sem fim e sem medida. Eis porque a lança abriu o seu Coração material, a fim de nos fazer conhecer a ferida do seu Coração espiritual, do seu amor que foi o obreiro da nossa salvação e da nossa Redenção… Jesus Cristo é o templo de Deus e o seu Coração é o Santo dos Santos, o altar do amor onde se operaram todos os mistérios e todos os sacrifícios. Tal é o significado primeiro da abertura do Coração adorável de Jesus. Este mistério ultrapassa todos os outros, porque a todos os contém. Que seria a oblação do Salvador, a sua vida, a sua imolação sobre a cruz, a sua morte mesma, se estes augustos mistérios não tirassem toda a sua seiva do seu Coração?… (L. Dehon, OSP 3, p. 380s.).
 
 
Actio
 
Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29).
 
 
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Sagrado Coração e Jesus (Sexta-feira a seguir ao Domingo II depois do Pentecostes)