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Desde o princípio, fomos chamados a «cultivar e guardar o jardim do mundo (Gn 2,15)», conscientes que «cultivar quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno e guardar significa proteger, cuidar, preservar, velar». Esta proposta vocacional não deixa espaço para a exploração inconsiderada dos recursos do nosso planeta nem para a busca de um lucro imoderado e a qualquer preço. O seu fundamento é «a relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza» (LS 67), pois é «ao Senhor que pertence a terra» (Sal 24,1). Este senhorio de Deus inclui a proibição ao ser humano de «toda a pretensão de posse absoluta» (LS 67) de qualquer parte da criação.

O pensamento cristão, ao «desmistificar a natureza» e já «não lhe atribuir um carácter divino», «ressalta ainda mais o nosso compromisso para com ela». O ser humano «é parte do mundo», mas tem «o dever de cultivar as próprias capacidades para o proteger» (LS 78). Está à vista de todos o quão frágil é este nosso mundo e como esta fragilidade se agrava a cada ano que passa. Deus «deseja actuar connosco e contar com a nossa cooperação» (LS 80) na construção de um mundo mais harmonioso e sustentável, o que implica aprendermos a «orientar, cultivar e limitar o nosso poder» (LS 78).

Este chamamento a ser «jardineiro» da criação comporta ainda a rejeição de «todo e qualquer domínio despótico e irresponsável do ser humano sobre as outras criaturas», pois o fim último «não somos nós». A meta comum a todos os seres é o próprio Deus. Ao ser humano toca-lhe simplesmente «reconduzir todas as criaturas ao seu Criador» (LS 83). É justamente aqui que nasce uma espiritualidade que reconhece o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus, mas não «esquece que cada criatura tem uma função e nenhuma é supérflua. Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus» (LS 84). Neste sentido, «se o ser humano não redescobre o seu verdadeiro lugar, compreende-se mal a si mesmo e acaba por contradizer a sua própria realidade» (LS 115).

Esta vocação humana primordial apresenta-se bem viva e visível nas comunidades aborígenes. A este propósito, o papa Francisco afirma que, «para eles, a terra não é um bem económico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida» (LS 146).

Deste modo, eis-nos perante o desafio de aprofundar o dom e toda a riqueza da nossa vocação. Ser «custódios da criação» não é o passatempo de uma elite ou o entretenimento para uns quantos apaixonados pelo tema. Pelo contrário, é algo que nos toca a todos…

 

José Domingos Ferreira, scj