AMOR EM FAMÍLIA – vocação e caminho da santidade

Em 1994, sob proposta das Nações Unidas, celebrou-se o “Ano Internacional da Família”. E desde essa data, passou-se a celebrar o Dia Internacional da Família a 15 de maio. A Igreja, por iniciativa do Papa João Paulo II, associou-se também à efeméride e a 8 e 9 de outubro de 1994 realizou-se em Roma o primeiro Encontro Mundial das Famílias. A partir de então, de três em três anos, realiza-se o Encontro Mundial das Famílias, num dos países do mundo escolhido pela Santa Sé. Cada Encontro tem um tema e costuma contar com a presença do Papa. Até agora realizaram-se 9 encontros: Roma (1994), Rio de Janeiro (1997), Roma (2000), Manila (2003), Valença (2006), México (2009), Milão (2012), Filadélfia (2015), Dublin (2018).

O X Encontro Mundial das Famílias estava marcado para 2021, mas, devido à pandemia, foi adiado para 2022 e terá lugar em Roma, de 22 a 26 de junho, sob o tema: “Amor em família: vocação e caminho da santidade”. Este Encontro serve também para encerrar o Ano “Família Amoris Laetitia” inaugurado pelo Papa Francisco a 19 de março de 2021, para assinalar o quinto aniversário da publicação (19 de março de 2016) da Exortação Apostólica Amoris Laetitia sobre a beleza e a alegria do amor familiar. Neste Encontro em Roma pretende-se destacar o amor familiar como vocação e forma de santidade, para compreender e partilhar o sentido profundo e salvífico das relações familiares na vida quotidiana. As dioceses assinalarão este acontecimento com encontros diocesanos de famílias.

A revista DEHONIANOS, acolhida na casa de tantas famílias de Portugal e também do estrangeiro, aproveita esta oportunidade para dedicar o tema central desta edição à família. Dialogámos com três casais que estão em estreita ligação com a nossa Congregação: O Manuel e a Anabela (casal Guedes) que desde há muitos anos colaboram na Paróquia de S. José do Bairro da Boavista, confiada aos Dehonianos; o Paulo que foi religioso Dehoniano e que, após ter feito o seu discernimento, saiu da Congregação e depois veio a casar com a Pilar (casal Rocha); o Carlos e a Amélia (casal Sousa), pais de dois filhos – Antonino e Pedro – que são sacerdotes Dehonianos.

 

Paulo e Pilar

05 de outubro de 1996: Matrimónio
29 de abril de 2000: Nascimento da Mariana
05 de outubro de 2000: Batismo da Mariana
01 de maio de 2003: Nascimento do Miguel
05 de outubro de 2003: Batismo do Miguel
05 de outubro de 2021: Celebração das Bodas de Prata

 

Vocação matrimonial

O Papa Francisco afirma que “um amor frágil ou enfermiço, incapaz de aceitar o matrimónio como um desafio que exige lutar, renascer, reinventar-se e recomeçar sempre de novo até à morte, não pode sustentar um nível alto de compromisso. Para que este amor possa atravessar todas as provações e manter-se fiel contra tudo, requer-se o dom da graça que o fortalece e eleva” (Amoris Laetitia, 124). Os casais que convidámos para esta edição da revista DEHONIANOS são um exemplo feliz deste amor que atravessa os anos. Por isso é sempre belo recordar como começou a constituição de uma família. Regressamos, assim, às origens desse amor.

Para o casal Rocha “a música encanta e, no nosso caso, fez-nos encantar um pelo outro. Houve também outro fator: o trabalho na mesma empresa, durante alguns anos, que nos aproximou ainda mais. Circunstâncias que ajudaram à descoberta vocacional, ao conhecimento recíproco e à decisão de casar, constituir família, para crescermos juntos”.

O casal Sousa partilha assim a sua experiência: “Eu era menina muito jovem e fui aprender costura para perto da casa do meu marido. Em frente à casa dele. E a partir daí começámos a conhecermo-nos. Ele de vez em quando vinha falar comigo e um dia pediu-me namoro. Eu tinha quinze anos e disse-lhe: ‘só namoro quando tiver 18 anos’. E quando eu fiz 18 anos ele pediu-me se já podia namorar comigo”. “Foi mesmo assim”, atalha o marido. “Eu já trabalhava desde os 14 anos, nos móveis, como carpinteiro. Namorámos 4 anos e casámos no dia 5 de abril de 1987”. A Amélia tinha 22 anos e o Carlos 27. O casal recorda também os primeiros passos da fé dados em conjunto: “Estávamos muito ligados à paróquia. Eu sempre fui catequista. Ainda hoje sou. O meu marido não frequentava tanto a Igreja, a não ser ir à missa”. “Era mais o futebol”, justifica. “Como nós já namorávamos, eu fui fazer a preparação para o crisma e convidei-o também a fazer junto comigo. Fomos os dois crismados no mesmo dia e a nossa madrinha de crisma foi a nossa professora de Moral”.

O casal Rocha salienta a importância da ligação aos Dehonianos no processo de discernimento: “A formação de ma-triz Dehoniana ajudou a que nos encontrássemos connosco mesmos, confrontando-nos com a possibilidade de um projeto de vida em comum. Depois, ajudou na seriedade com que se devem assumir decisões como esta, onde aprendizagens em ordem à vida consagrada adquirem um realismo muito significativo na vida familiar”.

 

Espiritualidade familiar

No último capítulo da Exortação Apos-tólica Amoris Laetitia o Papa fala da importância da espiritualidade na vida de uma família que “é feita de milhares de gestos reais e concretos. A família cristã deve prestar atenção ao crescimento espiritual de todos os seus membros” (nº 315).

O Paulo Rocha recorda o papel da espiritualidade Dehoniana na sua família: “De facto, há marcas da espiritualidade Dehoniana que se reclamam constantemente no ambiente da família e do trabalho. Dou três exemplos. Tenho na memória uma expressão que, sendo definidora da autenticidade do ser humano, é particularmente evocada pelos Dehonianos: “reta intenção”. Outras duas dimensões da espiritualidade Dehoniana que se conjugam diariamente: a oblação e a reparação. Sei que são conceitos marcadamente eucarísticos, mas que encontram uma grande pragmatismo no quotidiano, naquilo que se tem de fazer com entrega total, seja na família como no trabalho, e de reparação obrigatória para continuar o caminho. Depois, temos o privilégio do encontro periódico com a marca Dehoniana que há na nossa família: constituímos um grupo de 7 famílias em que um dos elementos (sempre ele, claro) esteve nos Dehonianos. Um projeto que já tem uns bons anos, mas que tem sido uma oportunidade de continuar a olhar os acontecimentos da Igreja e da sociedade a partir do olhar Dehoniano. E tem inspirado o nosso quotidiano, as nossas opções, as nossas alegrias e os desafios que vamos enfrentando. Pessoal e familiarmente”.

O casal Sousa fez um outro tipo percurso que Amélia descreve deste modo: “Na paróquia havia um grupo chamado Arca de Noé. Eu pertencia a esse grupo e incentivei o meu marido a ir para esse grupo. Já estávamos casados. Entretanto nasceu o Antonino que é o segundo filho de Arca de Noé. O primeiro foi o de uma amiga minha. Mais tarde a fundadora dos jovens da Arca de Noé entrou na Ordem do Carmelo. Esteve lá 7 anos e depois saiu. E quando saiu juntou-se de novo ao grupo e fez do grupo de oração um grupo de Carmelitas Seculares. Como já pertencíamos a esse grupo de oração entrámos também para o Carmelo Secular. Começámos a reunir no Porto, no Carmelo de Francos. A Arca de Noé ainda existe e reunimo-nos mensalmente como grupo de oração”.

Entretanto nasceu o Pedro, os filhos cresceram e entraram num seminário Dehoniano e o casal enriqueceu-se com novos elementos espirituais: “Acho que os Dehonianos têm um espírito de alegria, de convívio. Gostámos muito deste espírito. E achamos que o que cativou também o Antonino e o Pedro foi este espírito de acolhimento, de família. E ainda hoje temos amigos que foram pais de seminaristas e juntamo-nos no dia 14 de agosto. Ficámos uma família. Este acolhimento dos Dehonianos é marcante. Hoje alguém dizia: ‘você não tem netos!’ Não! Tenho muitos, tenho muita gente à volta. Esta é também a nossa família!”

 

Manuel e Anabela

21 de maio de 1983: Matrimónio
01 de junho de 1988: Nascimento do João
12 de novembro de 1988: Batismo do João
06 de maio de 1994: Nascimento da Mariana
07 de agosto de 1994: Batismo da Mariana
21 de maio de 2008: Celebração das Bodas de Prata

O casal Guedes experimentou um contacto diferente com os Dehonianos que depois ajudou a encarnar certos aspetos da espiritualidade da Congregação: “Toda a história da nossa vida familiar está impregnada do espírito Dehoniano. Os primeiros contactos aconteceram quando ainda não tínhamos casado e decidimos juntos deixar a nossa paróquia de referência, na época, uma comunidade estruturada com meios e valências diversificados, onde crescemos espiritualmente e onde recebemos a semente do desejo de ser missionário. Não o desejo de partir para terras longínquas, mas de entregar os dons que Deus nos deu, e aqueles que obtivemos da experiência comunitária, nas periferias. Fomos para uma comunidade cristã sem recursos humanos e financeiros, sem instalações, mas, apesar do ambiente bairrista algo fechado, havia uma forte ligação entre as pessoas, uma unidade e prestabilidade muito fomentadas pelo exemplo recebido dos religiosos Dehonianos que por ali iam passando”.

 

Momentos significativos

Convidámos estas três famílias a recordar alguns dos momentos mais significativos das suas vidas.

A Amélia exprime deste modo esses momentos vividos pelo casal: “O que recordo mais são os domingos no seminário de Rio Tinto, a missa as atividades com os pais, o convívio com os senhores padres”. O Carlos interrompe para acrescentar: “E também jogávamos futebol, entre os pais, entre pais e filhos e contra superiores. Eram bons momentos!” Amélia continua: “Para mim foi quando eles fizeram a Profissão Perpétua. Foi o mais marcante que vivi. Claro que as ordenações foram importantes mas a profissão perpétua… Outra recordação é a do Crisma, em Coimbra. E depois a Ordenação… quando eu vi o Senhor Bispo rezar sobre o meu filho deitado no chão eu disse: É Teu, não é meu. E já tinha dito o mesmo no dia do batismo: o Antonino foi baptizado no Sábado de Aleluia e o Pedro no dia de Natal. Nesse dia o que disse ao Senhor foi: Tu emprestaste-me para que eu seja feliz. Eles não são meus são Teus”.

O casal Rocha recorda os bons momentos deste modo: “Temos muitos momentos marcantes, felizmente! Desde logo o conhecermo-nos cada vez mais e melhor, o casamento, o nascimento dos filhos, as amizades que, também por causa dos filhos, vão crescendo… Mas, se tivéssemos de destacar um, seriam as celebrações dos 25 anos de casamento. Em vidas nem sempre de fácil conciliação de compromissos, foi possível celebrar as Bodas de Prata em Roma, na cripta da Basílica de São Pedro. Para além do simbolismo do local, os dias passados em Roma, foram ocasião de encontro entre os quatro. Depois, celebrámos também com casais amigos (nomeadamente em Alfragide, com o grupo das 7 famílias SCJ), família mais próxima e amigos!”

E o casal Guedes tem também um vasto elenco de belos momentos: “Os Campos de Férias das crianças das famílias mais pobres, as peregrinações nacionais Dehonianas, os Encontros Nacionais da Juventude Dehoniana, principalmente os que decorreram em Fátima e que registaram uma forte participação dos grupos de jovens do Bairro da Boavista e das suas famílias, as tardes dos Benfeitores e as tardes missionárias, as vigílias de oração de preparação para as ordenações sacerdotais e para outros tempos comemorativos da congregação, os retiros de preparação para as principais festas litúrgicas do ano, eventos culturais, palestras e sessões de esclarecimento”.

 

Carlos e Amélia

05 de abril de 1987: Matrimónio
13 de fevereiro de 1988: Nascimento do Antonino
25 de março de 1989: Batismo do Antonino
08 de dezembro de 1990: Nascimento do Pedro
25 de dezembro de 1990: Batismo do Pedro
05 de abril de 2012: Celebração das Bodas de Prata

 

Família e missão

No nº 289 de Amoris Laetitia o Papa fala sobre a missão do casal. E a primeira missão é, naturalmente, “transmitir aos filhos a fé, no sentido de facilitar a sua expressão e crescimento” de tal modo que a família se torne “família evangelizadora e, espontaneamente, comece a transmiti-la a todos os que se aproximam dela e mesmo fora do próprio ambiente familiar”.

O casal Rocha acolhe deste modo o ensinamento do Papa: “Acreditamos que temos de cuidar o terreno e deixar as sementes. Depois ter esperança num crescimento que se oriente de acordo com o que nos parece mais de acordo com o bem próprio e o bem comum. Educar não é um decreto! Mas acreditamos na arte de propor a opção (mais) acertada. E essa é de todos os dias, de todas as palavras de cada exemplo que se deixa no rasto de todos os dias”.

A missão da família vai para além da educação dos filhos, como sublinha o Papa: “A família torna-se sujeito da ação pastoral, através do anúncio explícito do Evangelho e do legado de múltiplas formas de testemunho, nomeadamente a solidariedade com os pobres, a abertura à diversidade das pessoas, a salvaguarda da criação, a solidariedade moral e material para com as outras famílias, o empenho na promoção do bem comum”. (Amoris Laetitia, 290).

O casal Guedes, bastante envolvido na pastoral da Paróquia de S. José do Bairro da Boavista, projeta a missão deste modo: “Iniciamos esta nova fase (pós-pandemia) com a expetativa de um espaço de culto e de apoio pastoral mais digno com a construção de uma nova igreja e centro paroquial, no coração do bairro social da Boavista, que permitirá marcar de forma acentuada a presença católica e, certamente, chamar mais população, especialmente, a dispersa ou sem pastor, ou que anda por caminhos que não são os mais adequados. Este é um sonho que fomos alimentando ao longo de décadas e que, finalmente, tem já bases sólidas que nos permitem sentir quanto próximo estaremos da sua realização. É-nos grato poder participar neste projeto que coloca à nossa disposição os melhores instrumentos que poderíamos desejar”.

A Amélia é catequista em duas paróquias e a sua “ânsia é que todos os meninos fossem padres. Muitos meninos não sabem o que é o seminário e por isso não podem gostar de ir para padre. Na sexta–feira fiz uma catequese diferente. Levei–os fora. Fomos a uma capelinha que há lá no meio do monte. Fizemos uma oração de partilha e no fim os miúdos disseram: ‘vamos fazer mais catequeses assim’. O que eles precisam é que se faça mais disto. Eles têm essa necessidade. É pena nós catequistas não incentivarmos mais. Nós dizemos as coisas, ensinamos a catequese mas enquanto não se vivenciar e não se sentir a presença de Deus… E são coisas que eles nunca mais esquecem”.

O Carlos, treinador de futebol de um pequeno clube da sua terra, fala da sua experiência com os jogadores: “Em questões de obediência eles obedecem. Procuro incutir valores, mas não é fácil e a prova é que muitas vezes são expulsos do campo por mau comportamento”. E a Amélia conclui: “Se nós semearmos bem, nós depois vamos também ver o resultado. Tenho um miúdo de quem fui catequista há uns anos e agora está na faculdade. E de vez em quando recebo uma mensagem: ‘reze por mim que vou ter um exame’. Isto deixa-me confortada. Quando eles acolhem bem o que transmitimos nunca mais largam”. E para rematar a conversa sublinha: “Hoje somos um casal feliz”.

Zeferino Policarpo