A FERIDA DO CORAÇÃO

A DEVOÇÃO AO CORAÇÃO DE JESUS HOJE

Um dos quatro princípios enunciados pelo Papa Francisco na Evangelii Gaudium (231) afirma que a realidade é superior à ideia. Mesmo nas coisas da fé, e sobretudo nessas, é preciso lembrar–se que a realidade supera a ideia. O nosso ser cristão não se baseia na força da ideia, mas assenta na realidade, a partir da realidade indedutível do Filho de Deus encarnado, que por nós morreu e ressuscitou. E é aqui que se encontra a razão de ser, a perene juventude da devoção ao Coração de Jesus. Esta, na sua própria essência “sintética”, coloca–se como guardiã desta realidade, do acontecimento pascal, no qual se encontra o cerne da espiritualidade do Coração de Jesus.

É precisamente a partir daqui que gostaria de desenvolver duas ordens de consideração sobre a relevância desta devoção para o hoje da Igreja, considerando respetivamente o objeto e a perspetiva na qual se situa.

 

1. O PARAÍSO DA NOSSA ORIGEM

A revelação do Coração de Jesus não é o símbolo abstrato de um amor genérico de Deus para com a humanidade, mas a manifestação de uma dedicação concreta, de um sofrimento real, de um amor humanamente inconcebível.

Vemos o ícone desta dedicação representado pelo evangelista João na cena da transfixação do lado de Jesus (Jo 19,31-37). É aqui que a devoção ao Coração de Jesus faz referência ao “coração aberto” (cf. Jo 19,34), a uma abertura que abre as entranhas da misericórdia de Deus e revela assim o mistério último de Deus. Como sabemos, não se fala do coração mas o lado trespassado de Jesus mostra-nos que desta ferida, feita simplesmente para comprovar a morte do crucificado, é possível vislumbrar o mistério de que Jesus vive, a paixão que ele sofreu e a morte. Um lado rasgado “para que, através da ferida visível, vejamos a ferida invisível do amor” (São Boaventura, Vitis mystica, 643). Uma ferida que rasga a impenetrabilidade divina, mostrando-nos do que é capaz o amor Deus. Uma ferida que abre o coração. E esta abertura do coração “está a indicar o dom (…) o que Jesus tem de mais pessoal e de mais íntimo; o espaço aberto, esvaziado, pode ser acessível a todos” (H. U. von Balthasar, Teologia dei tre giorni, 121).

A ferida do lado do Crucificado revela o amor infinito, indomável de Deus. É muito eloquente que para falar do amor de Deus a devoção ao Coração de Jesus tenha como referente simbólico uma ferida que mostra a verdade da encarnação e a concretude, nada etérea e espiritualista, que assume o mistério de Deus que se chama ágape.

É uma ferida, aquela do Coração de Cristo, que mostra até que ponto Deus se envolve na relação com o homem, de maneira sensível, material, com todo o afeto de que é capaz, nas entranhas da sua misericórdia. É uma ferida que sangra, que tanto custa a Deus. A morte na cruz tem um preço elevado: o preço de um amor apaixonado, indomável, “até o fim” (Jo 13,1).

É uma ferida, aquela do Coração de Cristo, que se expõe gratuitamente, oferecendo-se ao olhar contemplativo do crente (“hão-de olhar para aquele que traspassaram”), mas que também se expõe à zombaria de quem se ri, ironiza sobre a figura de uma salvação que certamente não pode realizar-se daquele modo (“Ele salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo!”). E é ferida fecunda, porque fomos curados pelas suas chagas (cf. Is 53,5). Fomos curados precisamente pela vulnerabilidade do coração do Filho, pelo facto de Ele se deixar tocar na carne. É desta ferida que nasce a Igreja.

É uma ferida, aquela do Coração de Cristo, acolhida, que mostra a força do amor. A virtude da fortaleza pressupõe a vulnerabilidade e consiste, na sua origem, em “saber aceitar uma ferida” (J. Pieper, Sulla fortezza, 19). A ferida do Filho de Deus fala-nos da força, da coragem de quem assume o próprio destino e aceita as feridas, custe o que custar. E, enquanto acolhida, é também acolhedora: na ferida do Trespassado encontram espaço todas as feridas da história, as dos desesperados, das crianças violentadas, dos refugiados, dos abandonados, as feridas da solidão inconsolável e das vidas desfiguradas.

E é uma ferida, aquela do Coração de Cristo, que é “o paraíso da nossa origem”, como escrevia Turoldo num dos seus poemas (Salmo del “pellegrino russo”, 298). A devoção ao Coração de Jesus mostra-nos que as nossas feridas, ou melhor dizendo, a nossa ferida – aquela que nós de alguma forma temos desde o momento em que nascemos, expostos à morte – é paraíso porque é habitado por um amor tal, o do Coração de Cristo. A ferida da origem pode transformar-se em graça.

 

2. TOCAR E DEIXAR-SE TOCAR

A devoção ao Coração de Jesus atinge o mistério daquele Deus que jamais alguém o viu (cf. Jo 1,18), o próprio ser de Deus que é amor (cf. 1Jo 4,8).  Atinge-o, não como ideia, mas vê-o, ouve-o, toca-o, no corpo dilacerado do Crucifificado.

Este aspeto da fé deve ser recuperado com urgência: o ver, o ouvir, o tocar. “Precisamos de uma nova gramática que seja capaz de conciliar no concreto os termos que a nossa cultura considera inconciliáveis: razão e sensibilidade, eficácia e afetos, individualidade e compromisso social, gestão e compaixão, espiritualidade e sentidos, eternidade e instante” (Tolentino Mendonça, La mistica dell’istante, 34). Precisamos, portanto, de uma aliança renovada entre as diferentes dimensões do espírito. É para isso que serve uma devoção. Situando-se na encruzilhada entre teologia e experiência, entre representação e afeto, a devoção pre-serva a realidade da fé, impedindo-a de degenerar em simples ideia, em inte-lectualismo sem vida.

No coração de Jesus vemos um Deus cúmplice da afetividade, que nos revela toda a paixão do seu amor. A fé que aqui se manifesta não é apenas uma fé que procede da escuta, não é apenas uma fé que vê, mas é também uma fé que toca, uma fé como “con-tacto”. “Por meio da sua Encarnação, com a sua vinda entre nós, Jesus tocou-nos e, através dos Sacramentos, toca-nos ainda hoje; deste modo, transformando o nosso coração, permitiu-nos – e permite-nos – reconhecê-lo e confessá-lo como Filho de Deus. Pela fé, podemos tocá-lo e receber a forma da sua graça. Santo Agostinho, comentando a passagem da hemorroísa que toca Jesus para ser curada (Lc 8,45-46), afirma: ‘Tocar com o coração, isto é crer’” (Papa Francisco, Lumen fidei, 31).

O paradoxo é que num momento como este que estamos a atravessar é difícil deixar-se tocar. Se é verdade que os nossos sentidos experimentam tensões contínuas e díspares, isso, em vez de nos tornar mais sensíveis, produz em nós uma espécie de saturação sensorial que conduz à atrofia da nossa sensibilidade. Estamos tão expostos, estamos tão cheios de contactos, que acabamos por impossibilitar uma relação autêntica com o outro. E a tecnologia, enquanto produz possibilidades de contacto até agora inimagináveis, acaba por nos anestesiar do contacto autêntico com o outro, o seu rosto, a sua alegria e o seu sofrimento.

A devoção – que é uma relação de dedicação, dom, oferta (votum) – implica como atitude fundamental esta abertura ao toque do Outro. É devoto quem se expõe, baixa as suas defesas, abandona-se ao mistério de um Deus sensível ao homem, de um Deus que quer ser tocado pelo homem. Marcello Neri fala da devoção como o “trânsito da vida” (Cf. Giustizia della misericordia, 116).

O contacto com o Deus revelado no Coração do Salvador torna-se assim, contacto com a nossa interioridade mais profunda e com as nossas feridas mais escondidas. Torna-se contacto com o outro, com o homem ferido que se faz próximo de mim e deseja, ainda que tacitamente, o gesto de um acolhimento plenamente humano. A devoção ao Co-ração de Jesus é a garantia de que as nossas feridas tocam Deus e que são guardadas na ferida do Trespassado, no paraíso da nossa origem.

in Testimoni 6/2016
Stefano Zamboni, scj