É TEMPO DE SERENAR

O nosso mundo desenrola-se a uma velocidade furiosa e estonteante. Quem não consegue acompanhar o ritmo, fica para trás. Muitos de nós sentimo-nos a correr de um lado para o outro e talvez suspeitemos que essa correria frenética se tenha convertido já num mecanismo automático. Nestas condições, alcançar a serenidade é um desafio: um desafio árduo, mas não impossível.

A serenidade é um dos sinais que indica a maturidade de uma pessoa. A pessoa madura não vive dependente daquelas expectativas e reivindicações que outrora eram os objectivos da sua vida. Com o passar dos anos, aprendeu a enquadrar tudo isso e tornou-se capaz de relativizar aquilo que antes considerava como essencial. Com o passar dos anos, aprendeu que viver sob constante pressão era uma fonte de incómodos para si próprio e para aqueles que viviam ao seu lado. Com o passar dos anos, deu-se conta de quanta energia psíquica desperdiçou a comparar-se com os outros e a tentar ser-lhes superior.

Tornamo-nos mais serenos, no mo-mento em que aceitamos as coisas como elas são, sem querermos a todo o custo mudar a realidade e adaptá-la à nossa vontade. Não se trata aqui de um sentimento de impotência ou de resignação. É muito mais do que isso! É a consciência da insuficiência humana, que nos toca a todos de uma forma permanente. A pessoa serena aceita as suas fragilidades e as dos outros, ao mesmo tempo que lhes permite serem realmente eles próprios. Por isso, a pessoa serena exerce uma forte atracção, porque não desperdiça energias a julgar e a condenar os outros, permitindo que estes se sentem com gosto à sua beira. Uma pessoa serena é uma fonte de água que apaga o fogo descontrolado.

Sereno é também aquele que descansa no seu ambiente próprio. Quando nos sentimos verdadeiramente no nosso lugar, estamos em paz connosco e com o mundo à nossa volta. Quando nos dedicamos a realizar a missão que Deus nos confiou, experimentamos uma serenidade profunda, que nada nem ninguém nos pode roubar. Pelo contrário, se deixamos que nos arranquem à força do nosso meio, andamos logo mais irritados. Se não habitamos na nossa casa, então os outros passam a controlar–nos. Se não temos um lugar que sentimos como nosso, acabamos por deixar que as pessoas nos puxem numa direcção diferente e nos levem por caminhos que não queremos percorrer. Desta forma, sentir-nos-emos di-lacerados e empurrados de um lado para o outro pelas diferentes opiniões, expectativas e sentenças. Só quem está em paz no seu ambiente natural consegue confiar nos outros e aceitá-los como eles são.

Cresce na serenidade quem progressivamente se liberta de si próprio e decide entregar-se a Deus. Quem experimenta o grande amor que Deus tem por si e decide corresponder-lhe experimenta uma paz interior que não é facilmente abalada nem perturbada. Quem diariamente se oferece a Deus, sente-se apoiado neste rochedo inabalável contra o qual as ondas da tempestade pouco podem.

José Domingos, scj