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Num destes dias, em que tive de ir às compras ao supermercado, escutei uma jovem funcionária que dizia – alto e bom som – que não aguentava estar em casa mais de três dias. Para muito boa gente, habituada a movimentar-se de manhã até à noite ou simplesmente a sair de casa bem cedo e a regressar para o jantar, acredito que estes dois meses de clausura possam ter sido uma longa e pesada eternidade.

Hoje, porém, quero recordar que, no próximo dia 24 de maio, se cumpre o quinto aniversário da apresentação da encíclica Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum. Ao contrário do que acima escrevi, parece-me que cinco anos é pouco tempo para avaliar os frutos deste texto, até porque acredito que o melhor ainda está para vir.

O papa Francisco presenteou-nos com um texto extraordinário, que merece a nossa familiaridade com ele. Desde logo, conquista-nos com a sua simplicidade, cativa-nos pelo seu equilíbrio e fascina-nos pela sua análise sincera e profunda da realidade, sem cair em demagogias fáceis. Penso que, até ao momento, não existe neste mundo outro documento sobre o tema que se imponha desta forma. E isto é um motivo para nos alegrarmos e agradecermos, mas também uma razão suplementar para o voltarmos a ler, agora de forma mais pausada e meditativa.

Uma olhadela rápida pelo índice faz-nos compreender que não estamos apenas perante uma apresentação dos diversos fenómenos da degradação do ambiente (1º capítulo). Certamente que várias organizações poderiam fazê-lo de forma mais completa e exaustiva, mas talvez lhes faltasse a coragem para denunciar que, na raiz da crise ecológica, está a mão humana (3º capítulo). Sem qualquer tipo de vergonha, apresenta as convicções da fé cristã que podem iluminar este assunto (2º capítulo) e esforça-se em propor um modelo orientador da acção, que não exclua agentes nem saberes (4º capítulo). Consciente que o ver e o julgar por si só são insuficientes, abre linhas de acção: um agir marcadamente dialogante (5º capítulo), mas sobretudo um agir com repercussões na educação e na espiritualidade (6º capítulo). E com estas linhas se cose um texto sólido e completo.

Comecei a publicar estas reflexões no contexto do terceiro aniversário desta encíclica e fi-lo com um conjunto de perguntas, que quero recordar hoje: o que mudou na vida das nossas comunidades cristãs, familiares ou religiosas desde Laudato si´? Estamos a aprender a cuidar da “nossa casa comum” com mais respeito e cuidado? Já conseguimos celebrar de forma mais agradecida e reconciliada? O nosso olhar recuperou a sua capacidade de se abismar perante a realidade? Que iniciativas concretas conseguimos implementar na nossa vida?

Que este tempo, então, se caracterize «pelo despertar duma nova reverência face à vida, pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta em prol da justiça e da paz e pela jubilosa celebração da vida» (LS 207).

José Domingos Ferreira, scj