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Uma correcta compreensão da ecologia integral traz consigo uma determinada perspectiva sobre o trabalho humano. De maneira mais detalhada, uma recta ecologia integral implica considerar o trabalho como um valor, isto é, como uma dimensão que dá sentido à vida humana.

De acordo com as narrações bíblicas, «Deus colocou o ser humano no jardim recém-criado (cf. Gn 2,15), não só para cuidar do existente (guardar), mas também para trabalhar nele a fim de que produzisse frutos (cultivar)» (LS 124). O trabalho manifesta, de forma evidente, que a criação não é uma obra terminada de uma vez por todas, mas um processo em contínuo desenvolvimento. O autor sagrado designa este processo de «criação perpétua» (Sir 38, 34), pelo que nele o ser humano aparece como co-criador e participante activo na obra da criação.

Isto significa que o trabalho não é uma condenação injusta, um fardo insuportável ou um custo demasiadamente oneroso. Trabalhar para ganhar o próprio sustento é uma perspectiva justa e sensata, mas não deixa de ser redutora, porque não colhe toda a profundidade daquilo que o trabalho representa na vida do homem. Com efeito, «a intervenção humana que favorece o desenvolvimento prudente da criação é a forma mais adequada de cuidar dela, porque implica colocar-se como instrumento de Deus para ajudar a fazer desabrochar as potencialidades que Ele mesmo inseriu nas coisas» (LS 124).

A tradição monástica – em particular, a partir de S. Bento de Núrsia (480-547) – desenvolveu uma «compreensão do trabalho manual impregnado de sentido espiritual» verdadeiramente revolucionária. Esta tradição ensinou-nos «a buscar o amadurecimento e a santificação na compenetração entre o recolhimento e o trabalho. Esta maneira de viver o trabalho torna-nos mais capazes de ter cuidado e respeito pelo meio ambiente, impregnando de sadia sobriedade a nossa relação com o mundo» (LS 126). Amar o trabalho não significa então viver com os olhos postos no salário que se receberá no final do mês (algo perfeitamente justo, na medida em que todo o trabalhador merece o seu salário), mas viver na consciência da responsabilidade que Deus criador depôs nas nossas mãos. Esta perspectiva é fonte de entusiasmo, alegria e esperança para todos aqueles que se erguem cada manhã com esta convicção. Se a oração nos recorda que tudo depende de Deus, pelo nosso trabalho agimos como se tudo dependesse de nós.

O papa Francisco recorda que «somos chamados ao trabalho desde a nossa criação» (LS 128), o que significa que o trabalho é também uma vocação inscrita no nosso coração desde o dia do nosso nascimento. Não poder realizar este chamamento constitui uma frustração da nossa identidade mais profunda, pelo que todo o ser humano tem direito a trabalhar.

José Domingos Ferreira, scj