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A devoção ao Coração de Jesus chegou à descoberta da intensidade de amor de Cristo e do Pai. Todavia não se deu conta, com igual sucesso, do efeito salvífico desse amor, isto é, da vida divina do Espírito que, do seu Coração, Jesus derramava sobre o mundo para o recriar. A verdadeira devoção deve conduzir aí, isto é, a “ver” com os olhos da fé o mistério contemplado por João e por Maria: a realização do projecto divino da salvação em Cristo crucificado.

A devoção ligou-se demasiado aos afectos de Jesus – amor, misericórdia, perdão – e dos fiéis – amor, compaixão, reparação consoladora -, dando a impressão de que o cristianismo se reduz, sobretudo, aos bons sentimentos do coração, ainda que as chamadas “promessas do Coração de Jesus” recuperassem, pelo menos em parte, o seu valor salvífico.

A separação entre a devoção e a transfixão é, sob este ponto de vista, inegável. Enquanto o Trespassado na Cruz aparece como o salvador e o vencedor pascal tornado fonte de vida, o Coração de Jesus aparece, quase exclusivamente, como amante que nos mostra, com a sua Paixão, o seu amor, e pede aos seus fiéis uma resposta reparadora.

Mas o Deus bíblico é eminentemente o Deus que salva, e a história do seu amor é história de um amor salvífico. O mesmo se diga de Jesus Cristo. A devoção é, pois, convidada a recuperar esta dimensão original, e a contemplar, no Coração trespassado, o Coração do Salvador. Não é questão de legitimidade ou de utilidade espiritual, mas de centralidade e de maior fidelidade ao Evangelho. O Deus que se revela a nós na transfixão do seu Filho é o Deus bíblico da vida, que nos dá o seu Espírito para nos salvar.

O episódio da transfixão é o ponto de apoio para vivermos a devoção ao Coração de Cristo: partimos do seu Lado aberto e do seu Coração trespassado. Esta contemplação do Crucificado é, ou deve ser, anterior a qualquer prática devocional. Nele manifesta-se plenamente o Amor do Pai que entrega o próprio Filho, e o amor do Filho que se oferece por nós. Cristo crucificado é o modelo do homem novo, o primogénito de uma humanidade renovada no coração; uma humanidade que, acreditando no amor como ele acreditou, e apoiada pelo Espírito Santo, se empenha, como Ele e em seu nome, por uma nova civilização, a civilização do amor.

O Coração trespassado é memorial deste “amor maior”, que inspirou os gestos concretos do Salvador, as suas palavras, as suas opções, até ao dom total da sua vida, para a vida do mundo. Ao mesmo tempo, aquele Coração é sinal e antecipação profética dos tempos da Igreja: a expressão verbal “hão-de olhar” está no futuro.

O Coração trespassado é a imagem mais verdadeira de Deus-Amor, amor gratuito, doação total. É o rosto humano e visível de Deus invisível; é doação de vida e de caridade; é convite à interioridade para penetrar no próprio mistério de Deus.

Mas Cristo de Coração trespassado é também antecipação profética, imagem verdadeira, ícone vivo, “sinal eficaz” do que deve ser, ou deve tornar-se, todo o discípulo, e toda a Igreja, no seguimento dos passos do seu Senhor: uma comunidade transformada e animada pela caridade teologal, que vive o amor, que doa a sua vida por amor: uma Igreja de coração aberto, uma Igreja “doada” para a vida do mundo.

P. Fernando Fonseca, SCJ.