Na tarde do dia 22 de agosto de 2022, memória da Virgem Santa Maria Rainha, faleceu o nosso confrade dehoniano D. António de Sousa Braga, Bispo Emérito de Angra (Açores). Deixa uma herança de grande bondade e paternidade espiritual nos lugares onde foi sucessivamente desempenhando o seu ministério como religioso, presbítero e bispo. Tanto na formação dos seminários como na paróquia, no governo da Congregação Dehoniana como na administração da Diocese de Angra, onde serviu ao longo de quase duas décadas, D. António Braga marcou pela sua entrega a Deus e aos seus irmãos, com uma presença que ultrapassou as fronteiras do religioso, num grande desejo de fazer chegar a bondade do Coração de Jesus a todas as pessoas que com ele se cruzavam.

D. António de Sousa Braga nasceu a 15 de março de 1941, na freguesia de Santo Espírito, ilha de Santa Maria (Açores), sendo filho de João de Sousa Braga e de Maria Leandres Braga. Era o quinto de 10 irmãos.

Em maio de 1954, depois de ter concluído os estudos primários na sua ilha, rumou à ilha da Madeira, onde ingressou no Colégio Missionário Sagrado Coração, no Funchal, tendo aí frequentado o 1º e 2º ciclos liceais de então até junho de 1959. O seu percurso vocacional continuou, depois, em Coimbra, no Instituto Missionário Sagrado Coração, onde frequentou e completou o 3º ciclo liceal, com que então se tinha acesso ao ensino superior.

A 26 de junho de 1961, foi recebido como postulante na Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus; três meses mais tarde, iniciava o seu ano de noviciado, vindo na Casa do Sagrado Coração de Jesus, em Aveiro, vindo a fazer a Primeira Profissão a 29 de setembro de 1962.

Fez os seus estudos filosóficos em Monza, na Itália, entre 1962 a 1964. Nos dois anos seguintes, fez o seu estágio de vida religiosa no Seminário Nossa Senhora de Fátima que existia, então, em Ermesinde. Emitiu a Profissão Perpétua a 29 de setembro de 1966 e, nesse mesmo ano, inserido na comunidade formativa do Colégio Internacional da Congregação, em Roma, foi aluno da Pontifícia Universidade Gregoriana, que frequentou entre 1966 e 1970.

Foi recebendo sucessivamente as ordens então previstas na caminhada para o sacerdócio ministerial: as menores de ostiário, leitor, exorcista e acólito, e as maiores de subdiácono e diácono. A 17 de maio de 1970, dia de Pentecostes, no contexto das celebrações dos 50 anos de ordenação presbiteral do Papa São Paulo VI, foi ordenado presbítero pelo próprio Papa, na Praça de São Pedro, em Roma.

Depois da sua ordenação e até 1973, permaneceu em Roma, onde prosseguiu estudos na área da Sociologia no Instituto de Ciências Sociais da já mencionada Universidade Gregoriana. Nesse campo e durante os seus anos da especialização, o jovem P. António Braga participou ativamente na elaboração do estudo de opinião sobre a vida religiosa dehoniana, encomendado ao Centro Internacional de Estudos Sociais (CIRIS), de Roma.

Regressando a Portugal no verão de 1973, o P. António Braga teria como primeira nomeação e mais relevante encargo a responsabilidade da formação dos jovens religiosos, no Seminário Nossa Senhora de Fátima, de Alfragide. Em 1974, seria também professor no Instituto Superior de Estudos Teológicos, então a funcionar no Seminário da Luz, em Lisboa, que viria a ser um dos precursores da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. Entre 1974 e 1976 deu também o seu contributo ao governo da Província Portuguesa, assumindo o cargo de Conselheiro Provincial.

Em 1976, mais concretamente a 1 de julho, o P. António de Sousa Braga, aos 35 anos de idade, assumiu o delicado e responsável encargo de Superior Provincial. A idade com que era chamado a assumir esse serviço de animação da Província bem demonstra a confiança que os superiores e confrades depositavam nele, confiando-lhe o governo de uma Província ainda jovem, com apenas 10 anos, em tempos conturbados a nível social e religioso. Exerceria esse cargo durante dois triénios, entre 1976 e 1982, continuando, depois, a assessorar o Governo Provincial em sucessivas nomeações para o cargo de Conselheiro provincial, o que confirma a continuidade de estima e confiança da parte dos superiores e dos confrades.

Em 1982, ao deixar o serviço de Superior Provincial, o P. António Braga é enviado como Superior do Colégio Missionário Sagrado Coração, no Funchal. Pouco tempo ali permaneceria, regressando no ano seguinte ao Seminário de Alfragide para aí assumir as funções de Superior, cargo que ocuparia até 1989, ano em que deixaria de ser superior, mantendo-se porém ao serviço da formação como Diretor Espiritual e membro da Equipa Formadora até 1991. Durante esta segunda etapa de Alfragide, o P. António Braga foi ainda encarregado da Formação Permanente da Província Portuguesa. A estas funções haveria de associar uma nova dimensão do seu ministério sacerdotal, a paroquial, inicialmente como Vigário Paroquial (1983-1986) e, depois, como Pároco (1986-1991) da Paróquia local do Imaculado Coração de Maria, deixando também nessa área a sua marca de pastor próximo e benquisto.

Em maio de 1991, durante o Capítulo Geral que elegeu o argentino P. Virginio Bressanelli como Superior Geral, o P. António Braga foi eleito Conselheiro Geral e Assistente Geral. Com a humildade que o caracteriza, mas sobretudo com a sua grande sabedoria e a experiência de governo adquirida nos seus anos de Superior Provincial e nas várias vezes em que fora membro dos Conselhos Provinciais, viria a dar o seu contributo para o governo e a animação da inteira Congregação.

A 9 de abril de 1996, o Papa São João Paulo II chamou-o ao episcopado, nomeando-o 38º Bispo de Angra, nos Açores. Uma vez mais, como fizera ao longo de toda a sua vida, D. António disse “sim” e, com a disponibilidade de quem leva o Ecce venio de Cristo por lema, entregou-se ao pastoreio das nove ilhas que compõem o Arquipélago dos Açores, ciente de que o desafio era o mesmo que assumira o próprio Cristo, e que ele aprendera por via dehoniana: Ut unum sint – “Que sejam um”. Recebeu a ordenação episcopal a 30 de junho de 1996, na Sé de Angra, das mãos de D. Aurélio Granada Escudeiro, a quem sucedia. Pelos testemunhos de quem com ele conviveu nestes anos, o seu ministério episcopal fica marcado pela simplicidade e pela proximidade. Viria a ocupar o cargo até 15 de março de 2016, quando, completados os 75 anos de idade, o Papa Francisco aceitaria o seu pedido de resignação, sucedendo-lhe no cargo D. João Lavrador, desde 29 de setembro de 2015, Bispo coadjutor com direito de sucessão.

Depois da sua resignação, D. António de Sousa Braga quis voltar à Congregação que sempre amou. Regressou a Alfragide, o Seminário que dirigira com amor, o mesmo seminário onde ajudara a formar tantos jovens religiosos. Nesta casa, continuou a marcar pela presença simples e fraterna, pela sua jovialidade e pelo interesse que mostrava pelas pessoas que com ele viviam. Durante estes anos, de 2016 até à presente data, D. António Braga foi um bispo emérito ao serviço, como sempre esteve em toda a sua vida. Este regresso a Alfragide significou também voltar a estar próximo da paróquia que amara como Vigário Paroquial e como Pároco e onde continuou a ser uma presença marcante e muito amada.

P. Ricardo Freire, scj
Secretário Provincial