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“Por favor, olha para o meu filho” (Lc 9,38)

Carta para a solenidade do Sagrado Coração de Jesus, 28 de junho de 2019

Aos membros da Congregação A todos os membros da Família Dehoniana

No dia a dia da nossa vida, há sempre uma pessoa, um acontecimento ou um motivo que, por uma ou por outra razão, atrai a nossa atenção. Mas sabemos bem, por experiência, que não é fácil, e nem sequer é saudável ou possível, estar sempre atentos a tudo e a todos. É essa a nossa realidade.

No caminho de Jesus, no entanto, aconteceu algo que libertou a sua atenção de modo perene. Foi uma voz, uma declaração, vinda das alturas e capaz de ir até ao mais profundo do ser: “Tu és o meu Filho muito amado” (Lc 3,22). Estas palavras consolidaram a sua entrega às “coisas do Pai”. Mais tarde voltou a ouvi-las, não porque fosse necessário recordar-lhas, mas sobretudo para que outros sentissem o conforto de saber que Pai e Filho continuavam juntos, em boa sintonia, ao serviço da vida. Quantas vezes Jesus terá recebido conforto e força, fazendo memória dessa voz que se fez ouvir, vinda do céu, primeiro, entre as pessoas do seu povo que, como Ele, estavam à espera de receber o batismo de João e, depois, no Tabor!

De certo modo, podemos dizer que, na celebração da solenidade do Coração de Jesus, acolhemos o eco revigorado dessas mesmas palavras do Pai através da revelação cordial do Filho, “que tanto nos ama”. Esta nossa humanidade continua a ser desejada, procurada e abraçada pelo amor do Pai e do Filho!

Dos muitos encontros que Jesus teve, há um que talvez tenha reavivado essa declaração de Amor de maneira especial. Aconteceu precisamente quando Jesus descia do Tabor. Veio ter com Ele um pai, que trazia o seu filho, e gritou: “Mestre, por favor, olha para o meu filho, pois é o único que tenho” (Lc 9,38). Como não associar este grito à voz que tinha acabado de se fazer ouvir no alto do monte? Tanto uma como a outra são vozes de pais que pedem atenção para aquilo que mais amam, para os seus filhos: que sejam vistos e escutados. Diante da incredulidade e da perversão daquela geração, Jesus abriu um caminho para a esperança daquele pai e para a dignidade daquele jovem: “Traz aqui o teu filho” (Lc 9,41).

A nossa missão exige a nossa colaboração alegre, para manter esse caminho aberto e seguro, acompanhando os que também foram chamados a percorrê-lo para que, juntos, nos aproximemos do Mestre. Conhecemos o empenho e a abnegada dedicação de muitos dos nossos religiosos, comunidades e obras para que assim seja. No entanto, e com tristeza, não se pode esconder que também tem havido quem tenha sido lobo em vez de companheiro fiel, na hora de ir ao encontro dos mais pequeninos, dos mais fracos ou de pessoas que se aproximaram de nós e se entregaram totalmente a nós.

Ao olhar para aquele jovem e ao ouvir a súplica do seu pai, Jesus reconheceu neles o imenso amor do seu próprio Pai e a realidade do que estava a acontecer no seu próprio caminho. Foram muitas as ocasiões em que o Mestre se viu importunado pelos demónios da incompreensão e do desprezo; também foi tentado pelo demónio do egoísmo e do abuso de poder; muitos – inclusive alguns dos seus mais íntimos – fizeram insinuações doentias do mais variado tipo, mas sempre com o mesmo objetivo: separá-l’O das “coisas do Pai”.

Ao celebrar o Coração de Jesus aproveitemos o convite para sentirmos o prazer de sermos filhos e irmãos, atraídos a Ele pela sua ternura e compaixão. Também hoje, tal como fez naquela ocasião com aquele jovem, o Mestre quer entregar-nos ao Padre, sãos e libertos. Jesus não converte nada nem ninguém em objeto possuído para reter ou causar-lhe dano. Pelas ocasiões em que nem sempre é ou foi assim no serviço que somos chamados a oferecer, não nos falte a humildade de o reconhecer e o desejo sincero e concreto de reparação. Uma reparação que seja o mais eficaz e humanamente possível para com aqueles que sentiram dificultado o seu caminho em direção ao Senhor, e uma reparação orante e sincera diante d’Aquele que não deixa de olhar para nós como filhos amados.

Continuemos assim, a aprender com o Coração aberto, a caminhar juntos e a transformar-nos com Ele em oferenda viva para a vida do mundo.

 In Corde Iesu,

Roma, 23 de junho de 2019

P. Carlos Luis Suárez Codorniú, scj
Superior Geral e o seu Conselho

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