A pandemia COVID-19 chegou também aqui à Casa Provincial há cerca de duas semanas. Os diferentes testes realizados revelaram três casos positivos e outros tantos negativos. O P. Sergio Filippi foi um dos casos positivos.

Tinha alguns sintomas da doença, mas nada de especialmente grave ou que justificasse eventual internamento hospitalar. Viveu isolado no seu quarto estes últimos dias, como ditam as recomendações e regras das autoridades de saúde, sendo o nosso contacto com o P. Sergio feito sempre de porta fechada. Apesar desse constrangimento, fomos tendo conversas regulares ao longo dos dias. Ontem à noite foi das vezes em que o P. Sergio estava mais conversador e bem disposto. Esta manhã não respondeu quando lhe fomos levar o pequeno almoço. Faleceu durante a noite. Dizem os médicos da Emergência Médica que aqui vieram confirmar o óbito que terá tido uma morte tranquila. O Senhor certamente que já o acolheu no seu abraço de misericórdia sem fim. Que descanse em paz!

O P. Sergio viveu praticamente toda a sua vida religiosa e sacerdotal na nossa Província Portuguesa, como atestam os dados biográficos que deixamos abaixo. Os últimos anos foram passados aqui na Casa Provincial, onde era presença muito apreciada. Apreciávamos sobretudo a sua lucidez, a sua incrível memória, a sua vontade de se manter ativo e a sua autonomia, na bela idade de 86 anos que completara no passado dia 23. Só temos razões para dar muitas graças a Deus por tudo quanto o P. Sergio nos deixa de bem realizado, de exemplo de consagração e de vida sacerdotal.

 

Natural de Trento, Sergio Filippi era Dehoniano desde 1952 e Padre desde 25 de Junho de 1961. Partilhara mais tarde que na infância, quando se soube curado, estando às portas da morte, tal milagre se devia ao Padre Dehon (1843-1925), fundador dos Dehonianos, que tinha invocado. Toda a vida do Padre Sergio, nas suas viagens e memórias, haveria de revelar uma procura por esse Dehon que mudara a sua vida.

Foi enviado para Portugal no final de 1963, onde os primeiros Dehonianos, também eles italianos do Norte, haviam chegado na viragem de 1946 para 1947.

A ideia era formar-se em Filosofia para poder ensinar quer nos Seminários da Congregação quer no Instituto Superior de Estudos Teológicos (ISET), em Coimbra. Esse percurso, porém, foi breve. Concluída a licenciatura em Teologia, na Pontifícia Universidade de Salamanca, em 1967, só lecionou até 1971. Haveria de publicar dez anos mais tarde, pela Lello, uma parte da sua tese de licenciatura em Filosofia, sobre a saudade como característica na definição da identidade portuguesa.

O seu percurso foi desde os inícios dos anos 70 voltado para os serviços da Comunidade. O seu rigor e método que revelara na academia, foram direcionados para a elaboração do Directório Provincial, de cuja comissão fez parte; para serviços de administração económica das Comunidades por onde foi passando, desde o Porto, Aveiro e Lisboa, sobretudo na Igreja dos Italianos de N. S. do Loreto de 1980 a 1989, e para o serviço de secretaria na correspondência com os nossos benfeitores, que acumulou com o serviço de ecónomo, no longo tempo em que viveu na casa do Noviciado, em Aveiro (Esgueira), de 1989 a 2011.

Nesse ano revelara a sua segunda depressão profunda, da qual se foi libertando quer pela intervenção terapêutica quer pelo regresso à investigação por sua iniciativa. Pertencendo à comunidade da Casa Provincial, começa a pouco e pouco a inteirar-se do arquivo da Igreja do Loreto. Em 2014 lança uma obra sobre a história da Igreja dos Italianos, a Igreja do Loreto, e em 2017 uma biografia de um dos reitores dessa Igreja: Mons. Prospero Peragallo (1823-1916). Estes dez anos de presença em Lisboa, foram investidos na organização do arquivo da Igreja do Loreto, que lhe mereceu elogios públicos da parte de vários historiadores, bem como em investigações relacionadas com a presença de italianos em Lisboa, no período dos mais de 500 de história da Igreja do Loreto. Foi concluindo, nestes dez últimos anos, as suas memórias, que em breve se editarão.

Teceu todos os seus dias com uma fidelidade irrepreensível à oração e à vida comunitária.

A COVID-19 roubou-nos o P. Sergio, na manhã do dia 28 de Janeiro de 2021, cindo dias depois de ter completado 86 anos. Deixou-nos a saudade da sua presença discreta, modesta e sempre bem-disposta. O nosso coração encontra paz nesta hora por imaginar a alegria no rosto do P. Sergio pelo grande encontro de hoje que preparou cada dia.

P. António Pedro Monteiro
P. José Agostinho Sousa